Porque aceitamos viajar e enfrentar o desconhecido? *
"As vezes, estamos tão
ocupados tentando vir a ser o melhor...
que não podemos desfrutar do simplesmente ser!”
(Robert Fisher)
Nascemos em uma determinada família, em uma determinada cultura e num determinado lugar. Somos o resultado de tudo isso somado a vivência de cada individuo em seu tempo, ou seja, a maneira subjetiva como cada um de nós enxerga o que acontece a nossa volta.
Quando viajamos, nos aventuramos para além da nossa casa, da nossa família, da nossa cultura. Nos tornamos muito vulneráveis, não só porque estamos em lugares desconhecidos e nos sentimos desprotegidos. Mas principalmente, porque estamos diante de crenças muito diferentes das nossas, que questionam nossas referências e abalam nosso equilíbrio psíquico.
Porque aceitamos viajar, sair do nosso espaço, enfrentar o desconhecido? Sempre temos que fazer uma escolha, até mesmo quando aceitamos não escolher.A viagem exprime um desejo profundo de mudança interior, uma necessidade de experiencias novas, mais do que de um deslocamento físico.
Aceitar viajar é aceitar dar uma pausa na rotina, enxergar a vida por outro ângulo, vivenciar experiências diferentes e se permitir encarar o desconhecido: não só o que habita em outro país, mas principalmente, o que desconhecíamos em nós mesmos.Toda viagem provoca uma viagem ao interior de si mesmo.
O encontro com o outro, o estrangeiro que desconhecemos, requer uma mente aberta, o que significa não ficarmos só nos julgamentos. Temos que abrir espaço para o diálogo. A escuta do outro promove uma transformação em nós e propicia a interação, um caminho para ambos desfrutarem: porque só nos conhecemos através do outro.
Mas a idéia de estarmos num país estranho, em que se fala uma outra língua, com clima e costumes tão diferentes dos nossos, e não estarmos com tudo o que necessitamos, pode nos angustiar. O que levar em nossas malas? Queremos tornar nossa viagem a mais confortável e segura possível, é por isso, que sempre carregamos objetos que simbolizam afetivamente o amor ao local de onde partimos.
São objetos que nos relacionam à nossa casa e ao nosso chão – nenhum outro lugar no mundo nos traz mais segurança e conforto do que a nossa casa e o nosso chão. Por isso, nossas malas sempre irão estar recheadas de coisas que não precisamos, mas que nos dão segurança para lidar com tudo aquilo que iremos viver. É como se quiséssemos enfrentar o desconhecido de uma maneira já conhecida.
Mas assim como os objetos se deslocam na mala durante a viagem, mudar faz parte da vida. Como dizia o filósofo grego Heráclito: “Tudo flui. Não se pode entrar no mesmo rio duas vezes. Porque, ao entrarmos pela segunda vez, não serão as mesmas águas e nem seremos a mesma pessoa.”
Nossa bagagem é o nosso pequeno patrimônio em terras estranhas. Aos poucos vamos percebendo que a segurança maior não está nas coisas, mas em nós mesmos e na interação com o outro. Em toda viagem, assim como na vida, há uma relação de troca.
O anfitrião, seja ele o país, um parente, um amigo, enfim, quem nos recebe nos oferece abrigo, alimento etc. O viajante sempre leva o entusiasmo, a esperança, a curiosidade e a gratidão. Quem não acredita nesta relação de troca, não conseguirá desfrutar de uma viagem intensamente.
Em toda viagem, assim como na vida,quando incluímos o outro em nossos planos, estamos sendo responsáveis com a vida e, assim, estamos sendo capazes de aceitar que tudo tem o seu tempo:independente das nossas expectativas.